Jovem talento da escola pública de São José dos Campos trocou estabilidade na Aeronáutica para explorar múltiplas possibilidades com a ciência de dados
Bryan conquistou uma bolsa pelo FGV CDMC e atualmente cursa Ciência de Dados e IA.
Imagine um adolescente que atravessava a cidade de ônibus, encarando uma hora e meia de trajeto até o cursinho, determinado a transformar sua vida por meio do estudo. Esse foi o ponto de partida de Bryan Santos Monteiro, hoje aluno do 4º período da graduação em Ciência de Dados e Inteligência Artificial da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp).
Morador do bairro Putim, em São José dos Campos, Bryan despontou para os estudos aos 13 anos, quando soube da existência de um cursinho pré-vestibular voltado para alunos que desejavam ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR). Mais do que uma vaga cobiçada, eram cerca de 22 mil candidatos para 180 aprovados, o que mais lhe chamou a atenção foi a possibilidade de receber um soldo militar (cerca de um salário mínimo por mês) e a possibilidade de ter uma carreira na Força Aérea Brasileira (FAB).
Os pais, uma professora da educação infantil e um operador de guindaste, sempre incentivaram os estudos e conseguiram, com algum esforço, pagar o cursinho. O trajeto até a zona sul da cidade, onde aconteciam as aulas, exigia paciência: dois ônibus, longas esperas e semáforos que nunca pareciam se alinhar.
“Eu ficava frustrado e me perguntava se não dava pra pegar dois sinais abertos seguidos. Hoje, com o aprendizado que venho desenvolvendo em inteligência artificial (IA) e teoria de redes, sonho em propor soluções para esse tipo de problema, como reduzir o tráfego, tornar a coleta de lixo mais eficiente ou melhorar a segurança nas cidades”, comenta o joseense.
Depois de um ano de preparação e muito esforço, Bryan conquistou uma vaga na EPCAR. Além disso, também foi aprovado no concorrido Colégio Embraer, onde chegou a estudar por cerca de um mês. “Quando saiu a vaga na EPCAR, acabei deixando a escola da Embraer e indo para lá. Meu tio era sargento da Força Aérea e acabou me influenciando. Ele dizia que minha vida estaria resolvida”.

“Sou muito privilegiado por ter essa oportunidade, acho que não existe nada parecido no Brasil. Mas sigo me esforçando para continuar colhendo coisas boas no futuro” | Imagem: Arquivo pessoal
Três anos de disciplina e estudos
Em Barbacena (MG), onde fica a EPCAR, Bryan passou três anos em regime de internato, vivendo sob uma rotina militar intensa. Acordava antes das 6h para arrumar a cama, fazer a barba e engraxar os sapatos. Tinha aulas pela manhã, treinos esportivos à tarde, além de cumprir com obrigações militares. Apesar de desafiador, o período lhe trouxe amadurecimento e amizades que ele carrega até hoje. Além disso, foi nesse contexto que ele descobriu o prazer em estudar. “Era cansativo, mas muito estimulante. Quando eu comecei a estudar de verdade, percebi que gostava mesmo daquilo”, diz. A paixão pelas exatas o levou a competir em olimpíadas científicas. Quando estava no segundo ano do Ensino Médio, Bryan conquistou uma medalha de prata na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). O desempenho lhe rendeu um convite do Centro para o Desenvolvimento da Matemática e Ciências (FGV CDMC), instituição que busca identificar e oferecer a jovens talentos de escolas públicas a possibilidade de realizar estudos nos cursos da FGV no Rio de Janeiro. O objetivo é contribuir com o país na formação de lideranças com excelente base intelectual e acadêmica.
“Recebi um e-mail explicando o projeto e me convidando para participar. Se eu passasse no vestibular, receberia uma bolsa de estudos, com direito a moradia no Rio de Janeiro e auxílio financeiro para me manter”, conta.
Bryan passou meses pesando os prós e contras. Conversou com professores, amigos, até com cientistas de dados sobre as possibilidades de carreira na área que ele desejava seguir. Aos poucos, percebeu que queria mais do que estabilidade: queria liberdade para criar e propor soluções. “Foi muito difícil tomar essa decisão. Meus pais não apoiaram no começo. Mas eu sabia que, se não tentasse, iria me arrepender pelo resto da vida”.
Coincidentemente, o vestibular da FGV ocorreu no mesmo período de uma viagem da EPCAR ao Rio de Janeiro. Bryan deixou a excursão de lado e foi prestar a prova. Apesar de não estar se sentindo confiante, o joseense se saiu muito bem, alcançando o 16º lugar, entre mais de cem candidatos para 50 vagas.
“Eu estava jogando vôlei quando saiu o resultado. Saí da quadra, peguei o celular e fiquei paralisado. Foi um alívio enorme”, lembra.

Quando sobra tempo, Bryan procura atividades que lhe tragam novos aprendizados e perspectivas. Na foto, durante visita à Casa Firjan, no Rio de Janeiro, um espaço dedicado à inovação e ao futuro do trabalho | Imagem: Arquivo pessoal
Vida nova no Rio
No Rio de Janeiro, Bryan conta que se adaptou rápido à nova realidade. Ele mora em um hotel universitário, que é custeado pelo CDMC, recebe bolsa mensal, cozinha suas próprias refeições e estuda muito. “O ambiente da FGV EMAp é muito acolhedor e há uma atmosfera colaborativa, os professores são acessíveis e os colegas se ajudam. Eu sinto que estou no lugar certo”.
Dedicado, o joseense diz que agarra todas as oportunidades que a FGV EMAp oferece. Uma delas foi a oportunidade de contribuir em um projeto interdisciplinar com a FGV Brasília. Com orientações do professor Walter Wagner Sande, ele criou um painel interativo para conselhos municipais acompanharem os gastos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). A ferramenta lê extratos bancários e identifica desvios, oferecendo mais transparência no uso do dinheiro público. “Foi um projeto bem legal e a nossa ferramenta está pronta para receber os dados”, destaca.
Atualmente, Bryan participa de uma nova iniciativa, também coordenada pelo professor Walter, que visa despertar o interesse de alunos do ensino médio de escolas particulares pela área de exatas, por meio de oficinas de programação e criação de jogos interativos.
Fora da sala de aula, ele leva uma rotina bastante ativa: frequenta a academia diariamente e pratica escalada esportiva, esporte que descobriu ainda em São José dos Campos. “É o meu momento. Me ajuda a manter a mente limpa”, conta.
Sempre que pode, Bryan volta à cidade onde nasceu para visitar a família e reencontrar os ginásios de escalada que marcaram sua adolescência em São José dos Campos. Com olhar voltado para o futuro, Bryan quer aplicar seus conhecimentos em ciência de dados e inteligência artificial para que a teoria se torne um impacto real. “Eu sei de onde vim e sei pra onde estou indo. Sou muito grato ao CDMC e à FGV por terem aberto essa porta. Quero poder continuar meus estudos, fazer mestrado e doutorado, e quem sabe colaborar na resolução de problemas urbanos. Acredito que a ciência deve trazer impacto positivo na vida das pessoas”, afirma.